“Eu acredito que posso ver o futuro, pois repito sempre a mesma rotina, eu acho que costumava ter um propósito, mas deve ter sido outro sonho”.
Minha história é confusa, tenho falha em minhas lembranças que me fazem perder a noção de quem ou do que sou. Minha cabeça não passa de um turbilhão de idéias que nunca se concretizam. E tudo sempre me parece desorientado.
Hoje estou aqui, recebendo alguns raios de sol que refletem em meu rosto, advindos de uma janelinha mínima com grades. Usando uma camisa de força e sentado em uma cama, que é o único objeto dentro desta sala almofadada, descalço e com uma calça azul de algodão vagabunda de hospital, tento me aquecer um pouco, enquanto reflito (ou tento), sobre tudo que ocorre em minha vida, se é que posso chamar isso de vida.
A séculos as pessoas não me entendem, me temem, se desesperam ao ouvir de falar mim. Mas sou necessário, nessa existência e na de qualquer ser que caminha sobre qualquer mundo. Nunca entendi exatamente se isso é um fardo ou uma benção, mas indiferente do que seja, preciso sobreviver dela.
Deve se perguntar quem sou, certo? Bom, é bastante complicado falar de mim, sou algo ou alguém estranho, muito diferente do que suas crenças podem considerar existente.
Sou um arauto. Um arauto do universo, aquele que não segue o tempo, aquele que tem a chave a qual pode abrir e fechar mundos, aquele que conheçe o sentido da existência de todo ser, que leva a alma de todos para seus devidos lugares, que foi criado para ser o fim. Por vários nomes me chamam: anjo negro, anjo da noite, besta, barqueiro, anjo da morte, ou apenas morte e, quem sabe, outros mais. Mas hoje, me apresento apenas como Asryel.
Enfim, como um arauto, o universo me criou com uma missão, porém, deu-me livre juízo para decidir seguir ou não minha missão. Essa é minha benção e minha maldição. Creia-me, sou o melhor (e único) no que faço, e nunca vi motivos para quebrar a linha da minha criação. Isso até 4 semanas atrás, quando tudo se virou contra mim e o universo resolveu me punir, milhares de gerações em milhões de mundos diferentes me conheceram e me temeram mas, agora, estou preso em um corpo humano, cumprindo a penintência que me foi imposta, e tudo porque? Ainda me pergunto e não encontro respostas.
- Sei, e desde quando passou a acreditar que era um arauto? – pergunta meu psiquiatra.
Suspiro desanimado, pois outra sessão está iniciando e elas me fazem perder a paciência…
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