Um passo a frente para paz, um passo atrás para lutar.

Encostado na porta do avião PT 50, com o som de um vento de 200km/h rugindo e uma mistura do azul do infinito com o branco das nuvens a sua frente, estava olhando fixamente para o chão. 11 mil pés de altura, tudo era pequenino, era como se eu fosse um anjo. Mas longe de mim ser, naquele dia um anjo, ou sequer um demônio, era um mero ser humano, com pensamentos invertidos na mente.

O avião sobrevoava o campo com dificuldades, era muito fraco para enfrentar toda aquela turbulência, tremia, mas eu não me importava, continuava a sua porta.

Não sei bem o que queria aquele dia, nem o porque cheguei até aquele dia, naquele momento. Escolhas? Destino? Sei lá, não me atrevo a tentar achar explicações, faz tempo que desisti disso.

Mas eu estava parado, a um passo da paz, a um passo da luta.

Eu sabia o que aconteceria se caísse, mas não sabia o que aconteceria se voltasse. Sempre preferi a dúvida a certeza, o sacrifício a tranquilidade. Mas naquele dia não queria nada disso. Não sabia o que queria.

Tinha uma carta amassada na mão, lembranças retorciam minha cabeça e eram levadas pelo vento, até que nenhuma mais permaneceu.

Mas eu estava parado, a um passo da paz, a um passo da luta.

Observo o GPS em meu pulso, junto com o altímetro, ainda mantenho a mesma altitude e o local está se aproximando, faltam uns poucos quilômetros. Olho dentro do avião, apenas o piloto concentrado em seu trabalho, o tempo não está bom para voar e ele sofre para manter o avião em seu curso. Mas ele chega a seu destino, o GPS apita, a hélice para de girar e o avião diminui sua velocidade.

Mas eu ainda estava parado, a um passo da paz, a um passo da luta.

Aperto a carta em minha mão com toda a força, com raiva, com ódio e a solto ao vento, vejo-a desaparecer no céu, junto com o que restou da minha alma. Desativo os sensores de segurança do paraquedas e olho uma última vez para o horizonte. E sem tirar os olhos dele, dou um passo a frente.

Não estava mais parado, dei o passo.

Meu corpo cai, cada vez mais rápido, mas não é a velocidade que sinto, nem adrenalina, nem alegria. Apenas paz, já havia pulado mais de 2 mil vezes, mas foi a primeira vez que senti paz, aquela pelo menos. Não fiz nada além de cair, ao bel prazer do céu. E eu via o solo se aproximar, cada vez mais rápido, cada vez maior, mas não senti medo. Tentei me arrepender dos pecados, mas não consegui. E com eles eu fui para o outro mundo, enquanto meu corpo explodia no chão.

Não estava mais parado, eu dei o passo para paz e me senti bem.

Mas agora estou aqui, vendo meu corpo sem vida e as pessoas hororrizadas, caminho para longe delas e no meio de passos, um papel amassado cai ao meu lado. Observo-o por alguns instantes e me jogo de joelhos ao chão.

Por que eu não estava mais parado, eu dei o passo para paz, mas errei o caminho e teria que lutar. Merda!

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