Odeio fila.
Mas Murphy garantiu, em algum momento no passado, que ela sempre estará à minha espera.
Acordo de manhã e pego fila pra entrar no terminal de ônibus. Depois pego fila pra entrar no ônibus. Depois pra sair do ônibus e descer no outro terminal, onde pegarei mais uma fila. Aí pego fila pra descer novamente.
E por incrível que pareça, tem gente que, pasmem, parece gostar de fila. E pior: quer que você compartilhe o mesmo gosto.
No trabalho, pego a fila do café da manhã. Esses dias discuti com outra funcionária, uma coroa, que ficou uns 3 minutos manuseando sachezinhos diversos até escolher o sabor do doce que ia passar no pão dela. Passei na frente de todo mundo que tinha antes de mim e comecei a abrir um pão, sossegadamente.
- Nossa, como tem gente mal-educada – comentou em voz alta com a pessoa de trás.
Fingi que não ouvi. Aí ela falou diretamente:
- Você tem que esperar no final da fila, que nem todo mundo tá fazendo.
- Ué, você demorou pra se decidir o que ia pegar, eu passei na frente. Que diferença faz, se tem espaço pros dois?
Saí fora, enquanto ela fazia um tratado sobre a falta de educação dessa geração que não respeita os mais velhos. Em voz alta pra que eu ouvisse muito bem, naturalmente.
Ok, pra não dizerem que sou intransigente demais, aceito que algumas filas devem ser respeitadas, por questão de bom senso. Mas não aquelas em que a fila fica imensa por causa da ineficiência das pessoas em decidir as coisas ou lentidão de raciocínio. Como por exemplo, pessoas que vão pagar coisas no caixa e ficam meia hora contando dinheiro, normalmente moedas que ficam acumuladas às dezenas na mão delas. E você ali, com a grana certinha pra pagar a sua mercadoria em 10 segundos e ir embora. Eu, particularmente, acho desesperador.
Na catraca do ônibus também. Você tá ali com seu cartão, é só encostar e passar, mas não, você DEVE esperar o senhor contar as 37 moedas de 5 centavos dele antes de entrar no coletivo. É claro que Murphy já garantiu em algum momento no passado que por causa disso você vai perder seu ônibus, que só vai passar de volta daqui a meia-hora. A vantagem é que dessa vez você estará no início da fila.
Situação clássica: restaurante de buffet por quilo. Você quer voltar lá só pra pegar mais uma conchina de arroz, mas tem que entrar no final da fila. Se for direto ao arroz, por mais que o primeiro da fila esteja ANTES do arroz, vão te olhar com cara feia. É bom ser rápido, sob a pena de ser linchado pelos pseudo amantes da ordem e organização. Haja hipocrisia…
Não sei se é só no Brasil, mas é absurdo o fato de que tem gente que fica uma semana no portão do local de realização de um show, sofrendo com as variações climáticas, desconforto, tédio, etc. Isso não é fanatismo, é falta de amor próprio. Beira o sadomasoquismo.
Já vi também idosos em fila de banco antes de abrir a agência, sendo que eles têm atendimento preferencial e podem entrar ao qualquer hora pra serem atendidos prontamente no caixa (e mesmo assim ainda existe a fila de velhinhos paralela à fila dos “jovens” de vez em quando).
Entre outros diversos exemplos.
E é claro, não esqueçamos que a fila é o refúgio preferido dos Simpáticos Incovenientes. Quanto mais evitá-las, mais seguro você estará.
Concluo então que brasileiros adoram uma filazinha, ou, no mínimo, se acostumaram a ela. Já não basta a do INSS? A pra fazer a matrícula do filho na escola, isso SE conseguir a vaga? A do hospital, isso SE conseguir o atendimento? A de votação eleitoral, na qual você é obrigado a estar? As de entrevistas de emprego, sempre tão disputadas?
É um mal necessário, digamos. Mas às vezes é um mal desnecessário e que pode ser evitado. Basta ter um pouco de flexibilidade, deixar um pouquinho de lado a hipocrisia e se tocar de que, às vezes, você é a causa da existência dela.
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