Depois de 2 décadas e alguns anos de vida, me considero um perfeito antipático, ou seja, um curitibano nato.
Gosto da liberdade de não dar bom dia as raríssimas pessoas que se abrem pela manhã sem ser visto como um monstro sem coração. Gosto de agradecer aos balconistas em geral, ou ao cobrador do ônibus com um breve “obrigado”, não necessariamente acompanhado de um sorriso e um “como vai a família, seu Luiz?” ou um “e a seleção ontem, hein?”.
Mas no geral, me considero razoavelmente sociável depois que conheço a pessoa, como boa parte dos curitibanos supostamente fechados. Mas isso não vem ao caso.
O que vem ao caso, é que existem algumas pessoas que não respeitam sua opção de ser chato. Eles são os Simpáticos Inconvenientes. Pessoas que nunca te viram na vida, mas que tentam se socializar de maneiras tais que, uma vez recusadas, colocam o abordado na condição de grosseiro, chato, anti-social e similares. Embora eles ajam em qualquer lugar a qualquer hora, existem situações mais propícias. Eis algumas:
A última virada de ano passei na praia. Naturalmente, rolaram os futeboizinhos de fim de tarde à beira-mar. Eis uma ótima oportunidade pra que eles, os Simpáticos Inconvenientes, ataquem com toda a sua simpatia.
Ele vem andando como quem não quer nada pela areia (talvez apenas aguardando a oportunidade), até que uma bola role pra perto dele. O mais sensato seria ignorar a passagem da bola ou simplesmente rebatê-la para o seu lugar de origem. Porém, eles devolvem a bola e vêm se aproximando da rodinha, com uma corridinha despretensiosa e um maldito sorriso acolhedor. Quem terá coragem, por mais lazarento que seja, de se fazer indiferente à existência desse ser abominável? Seria no mínimo constrangedor, pra ele e para os membros originais da rodinha, que ele fosse ignorado e a brincadeira continuasse como se ele não existisse. O que acontece é que todos se entreolham, mas acabam tocando a bola para o Simpático Inconveniente, que passa a participar da brincadeira. Você praticamente não tem opção. E se você não ficar esperto, ele vai até a sua casa e toma a sua cerveja. Ok, isso foi exagero.
Outra situação muito comum é o papo no ônibus. O que pode ser mais odiável que, uma pessoa que você nunca viu na vida, tente se abrir, e mais, tentar que você se abra pra ela, contando detalhes da sua vida? Na maioria dos casos eles começam a conversa do nada, com uma informação relevante, e totalmente inadequada pra começar uma conversa. Por exemplo:
- Cheguei de Guaraqueçaba ontem.
Esse momento é crucial. O Simpático Inconveniente lança um olhar aparentemente inocente, mas permeado de expectativa. Você olha pra ele. Você poderia simplesmente ignorar, mas isso soaria grosseiro demais, afinal de contas, essa é a principal arma do Simpático Inconveniente. Você diz:
- Hmm.
É uma boa opção. Você agora mostrou ao Simpático Inconveniente que não está a fim de papo. Mas ele insiste.
- Meu filho veio morar aqui. Passou no vestibular, eu venho visitar de vez em quando. Sabe como é né…
- Legal – você na defensiva.
- Direito. Sempre quis ter um filho advogado. Você estuda? – prossegue o Simpático Inconveniente.
Aos poucos as perguntas passam a ser mais elaboradas e você não poderá mais ser curto e grosso, ou passará por antipático. Logo ele perguntará no que você trabalha, no que estuda, porque escolheu esse curso, quais são os pontos turísticos legais da cidade, entre outras coisas. Dê adeus ao sossego do seu trajeto no coletivo.
Na fila do banco, onde você e o Simpático Inconveniente já aguardam a meia hora, ele vai ser oportunista. No meio do silêncio absoluto, ele começa:
- É um absurdo, uma falta de respeito essa demora toda! Que descaso!
- Pois é – você diz envergonhado, pois devido ao silêncio interrompido, todos resolvem olhar para onde a conversa está acontecendo.
- Meu filho foi gerente de banco… – xeque-mate. Agora você não tem mais como escapar.
E em pouco mais de 10 segundos você estará, para o seu desespero, dialogando com ele. Até porque você está cercado de pessoas e não quer parecer um grosseiro mal-humorado que deixa uma senhora tão legal falando sozinha.
Algumas ferramentas podem ser úteis pra se proteger deles. Eu, por exemplo, tenho sempre um livro ao meu alcance, assim, posso puxá-lo no meio do diálogo, quando o Simpático Inconveniente fizer uma pausa.
Use a tecnologia a seu favor, amigo antipático. Finja que está recebendo uma ligação, ou respondendo mensagens no celular. Assim, você não dará chances para que ele aja. Logo ele desistirá de você e atacará outro mais desprevenido, e assim você estará livre para desfrutar o tédio da sua fila, ou do seu trajeto no ônibus, ou da espera no consultório do seu dentista. Em casos mais extremos, os Simpáticos Inconvenientes atingem níveis de inconveniência tão elevados que vão ignorar seu livro e seu celular. Nesse caso você pode simular um ataque epilético, um desmaio, um enfarte ou uma crise de labirintite. Fingir que é mudo é uma boa opção também. Apenas certifique-se de que ele esqueça isso antes que você chegue ao caixa.
A você, Simpático Inconveniente, registro todo meu repúdio.
A você, amigo anti-social, meus sinceros votos de força e paciência na luta contra essa classe que nos aterroriza.
E se você, amigo leitor, nunca foi atacado, fique atento. Eles estão por toda parte, apenas esperando uma oportunidade…
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