Sentado em um bar qualquer, com um nome estranho demais para ser lembrado, acendi um cigarro. Não sei exatamente por quê, pois só fumo em raras ocasiões, em geral quando o álcool já dominou grande parte dos meus pensamentos. Mas por algum motivo, hoje resolvi acender, o garçom me oferece chopp, agradeço a sugestão, mas peço uma dose de vodka preta, daquela que um gole lembra um soco diretamente no cérebro.
Fico aguardando-a, após um ano de simples “ois” e “tchaus”, por uma distração qualquer dela, um momento de fraqueza, um momento de guarda baixa, foi o suficiente para o tiro certeiro, e provavelmente sem entender o porquê, ela aceita meu convite de sair para conversar. Acho graça, a maioria das pessoas são extremamente carentes, por mais auto-suficientes ou bem casadas-namoradas-noivas que se digam.
Ela chega, exatamente com 15 minutos de atraso, é o tempo que ela levou para se convencer a entrar no bar, ficou tempo se remoendo, ela sabia que queria entrar, mas precisa enganar a si mesma. A vejo se aproximar, finjo uma surpresa sem fim, como se imaginasse que ela jamais viria:
- Você veio, que surpresa – digo, mas é óbvio que ela viria.
- É, estava precisando sair um pouco, arejar a cabeça -disse ela, bom, cada um chama como quer né? Pensei isso apenas.
- Imagino – respondo e sorrio – sente-se, o que quer beber?
Ela se senta, atrapalhada, não conseguiu nem ao menos me dar oi direito, ficou entre me dar um beijo no rosto, me abraçar e beijar minha boca. Acabou fazendo um pouco dos 3, acho que estava nervosa e sou obrigado a me segurar, ela finge não saber o que está fazendo ali, mas sabe.
- O mesmo que você – ela diz com um sorriso nervoso.
Levanto a sobrancelha direita e sou obrigado a sorrir enquanto respondo:
- Acho que é melhor você beber algo mais leve, que tal um vinho, tudo bem?
- Tudo e você? – responde ela, e isso me assusta um pouco, mas nada extraordinário.
- Tava falando do vinho, mas estou bem sim – respondo rindo.
- Ah sim sim, tudo bem.
Peço uma garrafa ao garçom, um vinho leve e doce, que ela bebe sem perceber, e após meia garrafa, o nervosismo virou descontração e risos e algumas indiretas. E uma garrafa depois, um pouco tonta, ela diz que precisa ir embora, concordo, pago a conta e me ofereço para levá-la em casa. No carro, uma pergunta solta, com ar de despreocupado:
- Tem que ir embora já mesmo? Poderíamos ir a outro lugar ouvir música…
Um breve silêncio, e uma resposta:
- É, acho que sim, não tenho saído muito ultimamente. Que lugar sugere? – diz ela vermelha, mas não acredito ser pela timidez. Ótimo, guarda baixa propositalmente.
- Tem um bar umas 4 quadras daqui que toca MPB, ou tem meu apartamento.
Outro tiro, o ultimato.
- Seu apartamento seria legal, mais reservado, mas não posso demorar.
- Tudo bem – respondo sorrindo. Tiro certeiro.
Já no elevador, beijos e respirações, em seguida, porta aberta, roupas no chão e corpos na cama, e por alguns instantes, os pensamentos embraquecem na minha cabeça, isso é comum acontecer nessas horas, estranho… Enfim, no momento certo abro a gaveta e uma maldita falha de planejamento, sem preservativos. Mas isso não gerou problemas para uma mulher que bebeu uma garrafa de vinho e um homem que, bem, é um homem, não raciocina.
- Eu tomo pílula, e não estou em “tempo fértil”.
Acho que ela disse isso, e foi mais do que suficiente para uma noite de gemidos, gritos, prazer e suor intensos.
A velha conversa:
- Nunca tinha feito isso antes, me sinto estranha.
Pensei em ficar em silêncio, mas acho que era necessário uma palavra qualquer.
- Não pense nisso, só se vive uma vez. – Blá, preciso decorar outras frases.
- É, né – responde mais para ela mesmo do que para mim.
- É – respondo rindo para que se sinta melhor, mas morto de sono, e achando o trajeto imenso.
- Sabe, talvez não devêssemos ter feito isso… Digo .. Ssem proteção. – diz ela.
Ok, pela primeira vez na noite fico preocupado.
- Como assim? – pergunto, preocupado.
- Ah, não sei, sou meio encanada… as vezes desregulo, mesmo fazendo certinho, e sabe né, sempre pode acontecer.
DROGA. É só o que penso.
- Imagina, não tem como acontecer, nem por mágica – respondo, mas dessa vez, é mais para mim do que para ela, aliás, bem mais para mim.
- É verdade – diz ela. E o restante do trajeto se segue em silêncio.
A deixo em casa, apenas um tchau, sem mais conversas, sem despedidas, e sem palavras motivadoras. Porque era hora de pagar meu crime, pela sedução proibida. O prazer momentâneo teve seu preço:
Por causa de uma noite, terei um eterno mês de preocupação… Saco…
Comentários