Um dia… No cotidiano…
Amor, acorda!
Ouço a voz da minha esposa longe, estou novamente passeando no shopping, porcaria de programa de índio, penso entediado enquanto respondo:
Hum.. Estou aqui, o que foi?
Olha que lindo esse relógio, vamos vê-lo? – pergunta animada. Humpf, como se eu tivesse alguma opção, apenas aceno com a cabeça e entramos na loja, que na minha visão é algo semelhante ao inferno: várias e várias mulheres babando, sonhando com jóias, relógios, colares, anéis e, ao mesmo tempo, vários maridos, namorados e afins, todos com a mesma expressão, entediada, sacal, de quem gostaria de estar em qualquer lugar, desde que fosse longe dali, volta e meia, cumprimento um ou outro, com olhar desanimado e eles retribuem, como quem diz :
Sim amigo, estou na mesma que você, te entendo, lugar chato.
Mas em um segundo, tudo muda, uma vendedora que mais parece com aquelas mulheres que sonhamos em ter o resto da vida ao nosso lado (matematicamente falando, isso dura questão de 1 mês após o casamento na média), perfeita dentro da concepção, longos cabelos pouco cacheados nas pontos, rosto delicado, alta, 1,70, talvez um pouco mais, corpo esguio, curvas destacadas por uma roupa preta colada, que deixa em evidência a linha reta que sua barriga é, sem um desnível a mais, que segue em linha até os seios perfeitos.
O sorriso magicamente encantador, e os olhos hipnotizantes perguntam à minha esposa, que de repente me parece a pessoa mais irritante do mundo:
Já foi atendida senhora?
Ainda não… Bla bla bla – não consigo ouvi-la falando, estou completamente travado pelo perfume dessa pessoa que me parece mais sublime que humana.
O senhor está junto dela? – me pergunta ela com sua voz doce e me sinto dominado por feromônios, e antes que eu termine de respirá-los, minha esposa se adianta em responder.
Sim, há dez anos – responde rindo.
Consigo apenas sorrir enquanto ela sorri junto, dez anos??? Quanto tempo jogado fora, onde eu estava com a cabeça. Novamente minha esposa emite palavras para mim, não consigo prestar atenção nela, olho para ela enquanto fala e concordo com tudo, mas eu estou prestando atenção na vendedora, nela, apenas nela, perfeita, me sinto completamente idiota, como um garotinho que está tendo sua primeira paixão.
E enquanto o tempo para, e meus sentimentos se refletem nela, minha esposa me volta à realidade, em um estado quase frenético, de alegria pura: Vamos amor?
Sim, sim, vamos – respondo atordoado, enquanto a vendedora agradece, com aquele sorriso. Santo Deus, não me traga para essa realidade, imploro, me deixe lá, mas é claro que ele não me ouve, e me traz de volta. Fico imaginando quem seria o sortudo, que após o horário dela a levaria para casa ou qualquer outro lugar, e a veria em seu estado natural, e sentiria o que por um instante foi meu sonho.
Não acredito que finalmente você me deu aquele colar e aqueles brincos – diz minha esposa, praticamente chorando de alegria. Ahn? – respondo levantando a sobrancelha.
Esses, seu bobo, quase não acreditei quando você concordou em comprá-los. – diz ela.
Fico sem ar por uns instantes, respiro fundo e digo.
Você merece, amor – digo procurando uma janela pra me arremessar.
Continuamos nosso passeio, ela sorrindo, feliz, outra pessoa. Mas eu só consigo pensar em uma coisa:
Apenas uma olhada, e me custam 10 mil reais… Saco…
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