Ouço aquele barulho insistente lá no fundo dos meus sonhos. ‘Bem bem bem… ‘ Parece que ele vai se aproximando, chegando cada vez mais perto dos meus ouvidos. Está chegando, está vindo, está aumentando, até que… Abro um olho e noto que estou apenas na minha cama, a paz ainda reina à minha volta, e o meu despertador está berrando que nem um louco. Olho para ele, parece que ele sorri pra mim, com um ar de vingança.

6:30. Hora de levantar. Era ele. Vinha dele aquele barulho irritante, que parecia querer me levantar de toda forma. Parecia que tinha me deitado fazia ainda alguns minutos. Mas enfim, era apenas uma impressão. Com toda a coragem de enfrentar o clima desagradável pós minha cama, levanto. Já sinto o frio na minha nuca, minhas mãos começam a gelar. Olho pela janela e vejo aquela neblina rondando todo o céu de Curitiba.

Penso e repenso: minha cama tão quentinha parece que está me chamando. “Não Dany, hoje você vai pra faculdade. Faltas reprovam”, falo eu mesma com a minha consciência. Foi isso que me fez ir: as faltas. Vou ao banheiro, lavo meu rosto, escovo meus dentes, coloco as lentes, ligo a prancha. Tiro meu pijama -quase congelo- coloco a calça jeans e uma blusa de lã qualquer, minha bota, me enrolo no meu cachecol, cara inchada, praticamente pronta. Mais uma passadinha de prancha na franja, passo um lápis no olho, um blush nas maçãs, um brilho qualquer, coloco um brinco e ouço a buzina da minha carona que está a minha espera.

Entre trancos e barrancos, algumas irritações do meu amigo com o trânsito, alguns bocejos, alguns ventos frios, meia hora depois estou eu, sentada naquela sala de aula, presente com o meu corpo, porém com os meus pensamentos voando sobre a cabeça de todos. Sinto que não estou ali, cada vez estou mais distante. Cada vez mais entro no meu mundo da imaginação, com as minhas historinhas impossíveis de acontecer – a não ser nos meus sonhos. E com isso vou vivendo ali, naquela aula de História da Arte meu mundo feliz, onde tudo acontece. Quem me dera se fosse assim, que me dera tudo realmente acontecesse conforme a minha imaginação.

De repente outra voz vindo lá do fundo. “Dany, Dany, acoRRRda…” Olho pro lado. Minha amiga me chamando. Faço uma cara de cu, mais uma vez meus sonhos foram interrompidos. Bruscamente, levanto-me e vou lá para fora. Acendo meu cigarro tranquilamente, olho para a chama enquanto ela vai se apagando.

Começo a pensar na vida, sozinha, ali, num canto qualquer daquela imensa faculdade. Sou apenas mais uma, sou apenas um ponto qualquer. Sou apenas um ninguém. Meu cigarro vai se acabando, e começo a fazer uma analogia com a vida. Ela também começa acessa, irradiando chama, mas aos poucos parece que vai perdendo sua nicotina, vai se acabando aos poucos. Até que chega ao seu fim, onde tudo se apaga. Pra sempre. E a jogamos fora, assim como o cigarro. Seria bom se também existissem vinte vidas numa caixinha, onde você pudesse renová-las cada vez que se cansasse. Mais isso também é um sonho que pertence apenas à minha imaginação. Mais um conto dos sonhos da Dany.

Amanhã é tudo de volta. Algumas situações podem ser diferentes, mas o básico sempre acontece. Mais uma aula, o mesmo cigarro, os mesmos pensamentos. E assim vou vivendo a minha rotina.

Autora: Dany

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